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13 maio 2022, 12h15

Domingos Soares de Oliveira

ENTREVISTA BTV

Domingos Soares de Oliveira, CEO do Grupo Benfica, abordou nesta sexta-feira, 13 de maio, em entrevista à BTV os pressupostos subjacentes à emissão do empréstimo obrigacionista de 40 milhões de euros, garantindo que tal não se traduz em qualquer "condicionalismo" da SAD para a transferência de atletas a "qualquer preço".

Independentemente da necessidade que "90 a 95% dos clubes europeus" têm em transferir atletas, o CEO do Benfica sublinhou a "robustez patrimonial" da SAD, colocando em cima da mesa a garantia de que os capitais próprios da mesma suplantam os 100 milhões de euros.

Perante isto, Domingos Soares Oliveira justifica a emissão de novo empréstimo obrigacionista com a necessidade, isso sim, de "apoiar a estratégia do ponto de vista de investimento e cumprimento de obrigações", sem esquecer o sucesso das mais de uma dezena de emissões e respetivos reembolsos por parte da SAD, que, ao longo dos últimos anos, acumulou lucros superiores a 200 milhões de euros.

O CEO do Grupo Benfica não vê, por isso, qualquer pressão adicional para que determinado atleta tenha de ser transacionado, ainda que tal possa ter naturalmente reflexos nas contas do exercício que encerra a 30 de junho. Tudo depende de como "o mercado se vai comportar".

Domingos Soares de Oliveira

SEM OBRIGAÇÃO DE VENDER

"O Benfica, como todos os clubes portugueses e 90 a 95% dos clubes europeus, depende da venda de atletas. Estando ou não estando na Champions, e para conseguir determinado tipo de resultados, depende da venda de atletas. Isto se quisermos ter a capacidade de investir em novos atletas, de fazer o seu desenvolvimento e conseguir ter rendimento desportivo a nível europeu como fazemos. Se estivéssemos a olhar apenas na perspetiva estritamente nacional poderíamos pensar noutro tipo de jogadores, mas se pensarmos numa perspetiva europeia para podermos ombrear, como neste ano, com equipas como Barcelona, Liverpool ou Ajax, a nossa capacidade de investimento depende da venda de atletas. Se é especificamente o jogador A ou B ou C, não dependemos de nenhum jogador em particular, porque felizmente temos muitos jogadores, entre os que vêm da formação e os que estão na equipa A, que nos podem gerar esse rendimento económico. Sabendo que para nós o rendimento desportivo é muito mais importante que o rendimento económico. Neste ano fizemos muito pouco dinheiro até agora, relativamente a mais-valias com jogadores, portanto, se quisermos ter uma situação em linha com os anos anteriores, teremos de ter alguma venda antes de 30 de junho, mas não é obrigatório que seja o jogador A, B ou C. É o que o mercado mostrar apetência. Não estamos condicionados em ter de vender a qualquer preço."

Domingos Soares de Oliveira

TESOURARIA ROBUSTA E INVESTIMENTO

"O Benfica, do ponto de vista das suas condições de tesouraria, tem mostrado sempre uma grande robustez, e o facto é que nós temos de fazer um reembolso das emissões de 2019, que terminou em 2022, e esse reembolso será feito apenas com meios próprios, não pedimos financiamento adicional. Depois, temos um conjunto de obrigações no próximo ano que têm a ver com a nossa despesa e relativamente ao nosso investimento. Basicamente, aqui, dependemos de várias fontes de receitas, a maioria delas estão hoje bastante estabilizadas, tudo o que tem a ver com patrocínios e bilhéticas sabemos o que podemos esperar para o próximo ano desportivo, depois temos dois aspetos que podem ser diferentes. Um é a participação na Liga dos Campeões ou na Liga Europa, e o segundo tem a ver com a transferência de jogadores. Independentemente dos imponderáveis associados a estas duas componentes, o Benfica tem de garantir que tem tesouraria suficiente para fazer face aos seus compromissos futuros, em particular não perder capacidade de investimento. O novo empréstimo obrigacionista endereça essas duas componentes, apoiar a nossa estratégia do ponto de vista do investimento e as nossas obrigações."

Domingos Soares de Oliveira

EMPRÉSTIMO OBRIGACIONISTA ATRATIVO

"Há dois aspetos absolutamente críticos para um aforrador, um investidor, investir nas ações do Benfica. O primeiro é que nós temos um historial de cumprimento de todas as nossas obrigações em termos de emissões, ou seja, pagamento de juros e reembolsos nas datas certas. Até hoje o Benfica demonstrou efetivamente que, como em todas as outras áreas, é uma entidade credível, que cumpre as suas obrigações. O segundo aspeto é que nos últimos anos este é talvez o ano em que temos a emissão mais alta. Há dois anos tínhamos uma taxa de 3,75%, a do ano passado foi de 4% e neste ano, fruto de conjunturas externas, nomeadamente a subida de juros, resolvemos subir a taxa para 4,6%. É uma taxa muito atrativa e acho que para um investidor, nomeadamente para os investidores Benfiquistas, este é um excelente investimento."

Domingos Soares de Oliveira

MAIS DE 100 MILHÕES DE EUROS DE CAPITAIS PRÓPRIOS

"Nós, fruto daquilo que tem sido a estratégia da última década, conseguimos ter uma situação patrimonial muito forte. Tivemos nos últimos nove anos um conjunto de resultados produzidos pela SAD do Benfica que se situam na casa dos 200 milhões de euros. Foram 200 milhões de euros de lucro, só no ano passado tivemos uma situação de ligeiro prejuízo. À conta desse lucro fomos conseguindo tornar mais robusta a nossa fortaleza e os nossos capitais próprios muito acima daquilo que é o capital social [da SAD]. Mesmo depois de um primeiro semestre em que teve um prejuízo, o Benfica, ainda assim, continua com uma situação patrimonial e com capitais próprios superiores a 100 milhões de euros. Foi o facto de ao longo dos últimos anos termos seguido uma política de responsabilidade relativamente à geração de resultados e, digamos, da construção desta fortaleza financeira, que nos permite quando enfrentamos maiores dificuldades, como foi o caso de não termos participado na Liga dos Campeões no ano passado, ou a situação da COVID-19, que nos impediu de ter o público, ou qualquer outra crise que possamos ter. Aquilo em que nos encontramos hoje é para podermos enfrentar estas crises com uma segurança acrescida."

Domingos Soares de Oliveira

RESULTADOS POSITIVOS SÃO POSSÍVEIS

"Normalmente, quando se analisa uma empresa, quando se percebe quais os critérios que a UEFA segue em termos de fair play financeiro, isto é, em termos de sustentabilidade financeira, o novo nome do antigo fair play financeiro, nunca se analisa um ano em concreto e a análise é feita a três anos. Na perspetiva de três anos é perfeitamente aceitável que haja um ano que corra menos bem, portanto, no nosso caso, temos condições para ter um resultado positivo neste ano, mas não é uma situação que nos deixe numa situação absolutamente de cabeça perdida, ou preocupados em excesso se o prejuízo for controlado. Não antecipamos ainda, depende de como o mercado se vai comportar até 30 de junho. Qualquer situação é equacionável, acreditamos que é possível entregarmos um resultado positivo, mas depende do mercado."

Domingos Soares de Oliveira

AUDITORIA FORENSE COMPLETA ATÉ FINAL DO ANO

"O que tem vindo mais para cima da mesa nos últimos meses é o tema da auditoria forense, porque as nossas contas são auditadas todos os anos e de forma regular, inclusive as semestrais. No tema da auditoria forense vale a pena recapitular o que está em cima da mesa. Na operação 'Cartão Vermelho' houve dois temas que não estavam diretamente relacionados com a SAD do Benfica e houve um em concreto no qual o Ministério Público nos pediu três contratos, e posteriormente pediu mais uma série de contratos. O que se entendeu fazer, a nova Direção eleita (aliás, a decisão até foi antes), foi produzir uma auditoria forense com uma entidade que nunca tivesse trabalhado com o Benfica. Foi escolhida a Ernst & Young, um dos quatro grandes auditores, que nunca foi nosso auditor. Há uma equipa específica. Avançou-se, em primeiro lugar, para uma auditoria forense aos três contratos que motivaram a operação 'Cartão Vermelho', os resultados foram apresentados, em termos internos, ao Presidente do Benfica, ao responsável jurídico da Direção do Benfica, aos nossos auditores, à Mazars, aos presidentes do Conselho Fiscal e da Mesa da Assembleia Geral. Tomou-se uma segunda decisão de avançar com a mesma auditoria forense com todos os outros 48 contratos. Esses resultados só vão ser obtidos na sua totalidade no final do ano. É importante explicar porque motivo isto acontece. Uma auditoria forense é um processo extremamente complexo, um processo que envolve coisas simples como a análise de contratos, relativamente simples como sejam movimentos financeiros realizados pelo Benfica, mas depois coisas bastante mais complexas como sejam o diagrama de ligações entre os vários intervenientes numa ou em várias operações. Portanto, isso implica que esta empresa tenha de ter uma capilaridade em termos geográficos muito importante porque terá de analisar entidades que estão sedeadas em Lisboa, outras no Brasil, em África ou na Ásia. É importante que a empresa tenha a capacidade de identificar em cada momento o interveniente A, quais as ligações e os seus beneficiários. Uma empresa não tem a mesma capacidade que uma entidade pública, nomeadamente o Ministério Público. Uma empresa não pode pedir uma carta rogatória para saber quem é o último beneficiário em determinado tipo de países. Mas uma empresa tem a capacidade para ir mais rápido, porque não está dependente de entidades terceiras para fazer o levantamento num qualquer país relativamente à informação que está disponibilizada em termos oficiais. Esse trabalho tem sido feito, é um trabalho em relação a cada contrato que é extremamente complicado, porque envolve estas ligações. Depois há um último aspeto, que tem a ver com a análise informática de toda a correspondência que exista nos nossos servidores. Nesse aspeto também não queremos incumprir a lei. Não posso violar a caixa [de correio eletrónico] de qualquer funcionário do Benfica porque a legislação hoje em dia protege esses indivíduos. Só posso fazer a análise com a autorização dos indivíduos. Quem está no Benfica, todas as pessoas que estavam no Benfica, disponibilizaram as suas caixas de correio de forma completamente transparente. Significa que depois é preciso ir à procura de elementos nas correspondências, mas estamos a falar de uma quantidade infinita de gigabytes [GB]. Não é uma coisa que saia de forma rápida. Fizemos em relação a três contratos, estamos a ver os restantes 48, que envolvem atletas e uma série de agentes, o que fizemos foi identificar lotes. A Ernst & Young faz o seu trabalho e a nós compete-nos colaborar da forma mais proativa possível. Os resultados são apresentados para o lote um, passamos para o dois e teremos nove lotes até ao final do ano. O acompanhamento está a ser feito pelo Presidente do Benfica, pelo departamento jurídico, pelos nossos advogados e pelos nossos auditores. Em qualquer momento que seja identificada uma situação em que a SAD do Benfica tenha sido prejudicada, garantidamente haverá uma atuação em conformidade."

Texto: Rui Miguel Gomes
Fotos: SL Benfica
Última atualização: 19 de maio de 2022

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